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Gato Pardo

Para quem conhece, vocês estão mais que vacinados. Vocês não conhecem isto? São maiores de idade? Trazem o vosso cartão de cidadão, boletim de vacinas e resgisto criminal? Não? Fantástico!!!

Gato Pardo

Para quem conhece, vocês estão mais que vacinados. Vocês não conhecem isto? São maiores de idade? Trazem o vosso cartão de cidadão, boletim de vacinas e resgisto criminal? Não? Fantástico!!!

Até sempre, recluso poeta

25.03.15publicado por Gato Pardo

Herberto Helder partiu.

Amanhã haverá uma parafernália de gente a fazer fila à porta dos grandes livreiros em busca das suas obras. É curioso mas é sempre assim. É preciso morrer para ser dado o devido valor e crédito a um escritor. Pelo menos, aos que valem realmente a pena. Triste, essa realidade.

Admito que era um desconhecedor absoluto da obra de Herberto Helder. Uns meses atrás, uma amiga disse-me o seguinte...

- Sabes, fazes-me lembrar um poeta português... - disse.

- Improvável. Se existe algo que efectivamente sou incapaz de escrever, é poesia. - retorqui.

- Conheces Herberto Helder? - questionou-me.

- Hum...Assim de repente, não me diz nada. Mas porque te faço lembrar ele?

- Vocês partilham algumas particularidades. A reclusão, o quase anonimato, o pouco gosto por registos fotográficos.

- Epá, já gosto mais dele e tudo...

Fiquei curioso. Dei por mim nas mãos com um exemplar emprestado de "Servidões". Emprestado, porque segundo o que vim a saber a posteriori, não foi lançada segunda edição por exigência expressa do autor. Li o livro em perfeito silêncio. Devorei cada palavra. E não me matou a fome. Pelo contrário, fiquei sequioso de mais. E eu não sou um particular adepto de poesia. Mas havia algo na maneira de escrever do Herberto que mudou algo em mim.

(…) farejo-te,
mordo-te a nuca, lambo,
e faminto me meto por ti adentro,
rebento os selos,
marco-te a fogo,
levíssima visita à minha sêca luz e arrebatada fome, (…)

Relembro que falamos de um homem que já havia completado 80 anos. Mas que escrevia com a leveza de uma brisa de Primavera.

O nosso património literário está a definhar lentamente. Perigosamente. E não vejo dignos representantes de empunhar o estandarte deixado por estes gentis gigantes. Reclusos por opção, anónimos por convicção , mas enormes.